Às diversas participações no Forum "Discutindo conceitos e teorias em Educação e Aprendizagem de Adultos" e às quais juntei as minhas "descobertas", esboço aqui o percurso que nos pode levar a entender de que "tesouro" falamos...
Tendo como base o memorando sobre Aprendizagem ao Longo da Vida, ( documento de trabalho dos serviços da CE apresentado em Novembro de 2000), o conceito que mais se aproxima do de EA é o de ALV ( aprendizagem ao longo da vida). Aqui define-se-a como " toda a atividade de aprendizagem em qualquer momento da vida, com o objetivo de melhorar os conhecimentos, as aptidões e competências no quadro duma perspetiva pessoal, cívica, social e/ou relacionada com o emprego".
Surge na década de 70, com Paul Legrad, quando reafirma a necessidade de cada indivíduo aprender ao longo da sua vida quer em contexto formal ou informal, sendo responsabilizado pelo seu próprio percurso educativo. Contudo, as novas exigências e as transformações do mercado fazem-na, muitas vezes, associar apenas ao desemprego, à competitividade e à economia global; esta associação acontece fruto da presença de baixos níveis de qualificação na população desempregada que é, entretanto, por diversos meios estatais estimulada a adquirir qualificações académicas e/ou profissionais, com vista à sua inserção e/ou reintegração no mercado laboral. Assim é tanto instrumento de realização pessoal como de objetivos económicos.
Foi a partir de 1997 que, segundo Cavaco cit. em Anibal (20013), através da 5ª Conferência da Unesco, (Confiteia V) se substituiram expressões como "educação permanente por aprendizagem ao longo da vida, educação de adultos por educação e formação de adultos e saberes por competências
A Unesco defende-a como condição essencial para o bem estar das pessoas e a educação uma responsabilidade coletiva; já o Conselho da Europa retrata-a como ferramenta fundamental para a integração social e responsabilidade central dos diferentes Estados-membros. Por seu turno, a OCDE refere-a, conforme Centeno (2011) como força estabilizadora da lógica de oferta e procura, intrínseca ao mercado de trabalho, atribuída sobretudo ao indivíduo, principal agente da sua integração sócio-económica.
O conceito de ALV surgiu, segundo Friedman, (1985),com base numa "ideologia neoliberal e individualista" representada, na visão de construir uma sociedade cognitiva, composta por organizações qualificantes autónomas e empenhadas na salvaguarda dos interesses privados. (Drucker, 2000).
Segundo Fieldhouse, (1999, cit. por Quintas, 2008:17), o conceito de aprendizagem ao longo da vida é utilizado para "cobrir todas as formas de educação pós-obrigatória, incluindo a educação familiar, a educação comunitária, a educação e formação de adultos tradicional, a educação pré escolar e superior e a formação profissional e contínua".
Alguns autores como Dubar, Le Goff, Liétard, Finger, Asún, Canário, Lima e Cavaco opõem-se à mudança de paradigma humanista, para neoliberal mas há outros como Ávila que defendem que os dois se complementam e que a EA pode acompanhar a globalização e a sociedade do conhecimento sem se afastar das ideias humanistas facto reforçado por Anibal quando o cita: " nas sociedades atuais, a valorização das competências dos indivíduos, em especial as de caráter transversal, não pode ter, como noutros tempos, finalidades meramente ligadas à sua profissão, trazendo vantagens para o indivíduo em muitos outros contextos e situações de vida, pelo que, segundo Anibal (2013:14) "as competências e os modelos de formação valorizados no atual contexto económico podem constituir um recurso de valor transversal nas sociedades contemporâneas".
Sitöe define ALV como "toda a atividade de aprendizagem em qualquer momento da vida, com o objetivo de melhorar os conhecimentos, as aptidões e competências, no quadro duma perspetiva pessoal, civíca, social e/ou relacionada com o emprego".
Podemos assim dizer que a ALV dota os individuos das ferramentas necessárias para a promoção do desenvolvimento pessoal, para a integração social e para a participação na sociedade do conhecimento. É compreendida mediante dois conceitos que se interligam: Aprendizagem e Vida. Engloba qualquer pessoa que aprenda desde o nascimento até à morte, em todas as idades, e formal , não formal ou informalmente.
É efetivamente um novo paradigma da contemporaneidade que nos traz e aproxima conhecimento e aprendizagem e onde se integra a Educação e a Formação de Adultos. Principio orientador e integrador de conceitos em Educação e das Políticas Educativas valorizando, em concreto, as aprendizagens que os adultos realizam ao longo das suas trajetórias pessoais, sociais e profissionais quer em ambientes formais, não formais ou informais.
É assim, por consequência do exposto, a capacidade de sermos capazes de continuar a aprender depois de terminada a nossa formação "escolar", esquecendo a dictomia entre adquirir conhecimento (voltada para a escola) e aplicar o conhecimento ( voltada para o local de trabalho, para o mundo)
Foi assim que o sucesso do conceito de ALV, na última década do séc. XX se relaciona com duas ordens de preocupações relevantes mas absolutamente distintas:
A primeira de cariz económico, reconhecendo ao conhecimento e à informação o papel de "matéria prima" fundamental do desenvolvimento económico.
A segunda prende-se com uma visão mais englobante e humanista da educação, pondo em relevo a diversidade de saberes e competências requeridas pelas sociedades contemporâneas, sejam elas pessoais, necessárias à construção da autonomia e de projetos de vida dos indivíduos; ou ainda sociais, de cidadania ativa, de capacidade de cooperação, de respeito pela diferença e de participação social.
É nesta ordem de preocupações que a Unesco, no Relatório que elabora em 1996, através da Comissão Internacional sobre Educação para o séc. XXI, presidida por Jacques Delors , inscreve a educação como " ...um tesouro a descobrir"
Imagem disponível em www.google.com Palavras-Chave: Educação um tesouro a descobrir
Aníbal A. (2013) Da educaçãoi permanente à aprendizagem ao longo da vida e à validação das aprendizagens informais e não formais: recomendações e práticas, CIES e-Working Papers , acedido em 15.04.03 em:
http://www.cies.iscte.pt/np4/?newsId=453&fileName=CIES_WP147_Anibal.pdf
Barros, R. & Moreira, J. (2013) Bem estar subjetivo e Educação de Adultos. Santo Tirso: Whitebooks
Delors, J. Educação um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. 9ª ed. Cortez Editores. MEC
Quintas, H. (2008) Educação de Adultos vida no currículo e currículo na vida. Lisboa. ANQ, I.P.
Sitoe, R. Aprendizagem ao longo da vida: um conceito utópico?. Comportamento Organizacional e gestão, 2006, Vol. 12, nº 2, 283-290
Távora, A; Vaz, H.& Coimbra, J. (2012) A(s) crise(s) da educação e da formação de adultos em Portugal. Saber & Educar, 17
Documento de trabalho dos serviços da CE apresentado em Novembro de 2000, disponível e acedido a 15.04.03 em
http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/cog/v12n2/v12n2a09.pdf

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