Associativismo e voluntariado mostram uma relação direta com a educação, porquanto delas emergem aprendizagens construídas em processos sociais coletivos, participativos, onde a aprendizagem não é gerada em estruturas formais de ensino escolar, mas sim no campo da educação não formal.
São processos fundamentalmente participativos civis, reconhecidos nas suas ações coletivas como produtoras e agenciadoras de saberes em que a construção do conhecimento é feita de acordo com as realidades, interesses e experiências. Assim, através da intervenção comunitária despertam também para a cidadania ativa através da participação e da consciência crítica.
As ações promovidas pelo associativismo e/ou movimentos sociais agilizam também uma maior dinâmica com a população local, no sentido de se desenvolverem soluções para problemas atuais, contribuindo assim para uma maior aprendizagem e desenvolvimento, baseados nos saberes locais e na capacitação individual dos indivíduos. E, partindo do princípio de que a participação das pessoas nestas ações está ligada ao processo de conscientização de Paulo Freire (1987) todos os resultados conseguidos através das mesmas fazem com que as pessoas sintam que lhes é possível transformar a sociedade que os rodeia e a realidade social que os envolve.
É esta sensação de ser capaz, traduzida no "ser-se socialmente válido" que permite às pessoas enfrentarem os desafios e os tornarem alavanca de dinamização, autonomia e capacitação que, pessoalmente, entendo poderem e deverem provocar, á medida que os indivíduos participam, um processo de socialização que faça com que, quanto mais as pessoas participam, mais tendem a continuar nesse caminho. Ou seja, é participando que o indivíduo se habilita à participação no sentido pleno da palavra, que inclui o facto de tomar parte e ter parte no contexto onde se inserem. Por outras palavras, as de Pateman, (1992:61), " quanto mais os indivíduos participam, melhor capacitados eles se tornam para fazê-lo" Isto é sem dúvida uma forma de traduzir a capacidade dum modelo democrático que incorpore e defenda a participação da sociedade civil no interior do Estado democrático, conseguindo restabelecer o vinculo entre democracia e cidadania ativa.
Não nos podemos contudo alhear de que estas iniciativas são socialmente promovidas e com as quais o desenvolvimento local está diretamente relacionado, uma vez que se carateriza por um conjunto de práticas que estabelecem a articulação entre a educação de adultos e o desenvolvimento a uma escala local, valorizando sobretudo a participação direta de todos os interessados nos processos de desenvolvimento marcados "pelo seu caráter global, integrado e endógeno" (Canário, 2008:15) onde obviamente cabem movimentos sociais de voluntariado, ONG's e Associações; Estas últimas que, conforme Lierbermann(2011) não se devem considerar " simplesmente como um grupo no seio da comunidade, uma vez que a associação implica não só organização mas também o envolvimento da comunidade local...", cujos objetivos são centrados na " capacidade de responder aos interesses e necessidades da população" tornando-se como instrumentos para " aumentar o garu de excelência, de qualidade, de saber fazer, dos recursos (...) e dos meios em determinado território, ir buscar coisas, recursos que estavam por explorar, que estavam por utilizar e utilizá-los de outra maneira ou utilizá-los melhor, saber definir e aplicar uma estratégia integrada de desenvolvimento em que se possa apostar , simultaneamente, (...) com o aumento da qualidade de vida e uma melhoria do quadro de vida, nos serviços às pessoas" (Melo, 2005:106 in Canário R. & Cabrito, B. 2005) entre muitos outros aspetos que consigam satisfazer as necessidades das pessoas, num quadro de equidade social, liberdade, solidariedade e bem-estar.
Revela-se uma vez mais a importância da participação da comunidade, estimulando-a a empenhar-se e assumir responsabilidades, posteriormente traduzidos em benefícios ao nível da melhoria das condições de vida da sua população. Uma participação dos atores locais que, segundo Canário ( 2008:65) seja capaz de " transformar o processo de desenvolvimento num trabalho que a comunidade realiza sobre si própria, aprendendo a conhecer-se, a conhecer a realidade e a transformá-la". Uma participação, conforme ainda Canário (2008) indissociável de endogeneidade na forma como se identificam e mobilizam os recursos, assentes numa lógica de otimização e recombinação dos mesmos, mais especificamente no que diz respeito aos recursos humanos. Também se reforça a necessidade de envolvência dos intervenientes exteriores e os atores locais (comunidade), valorizando os conhecimentos e experiências dos mesmos, caraterizando-se a sua intervenção " como uma estratégia de formação para a mudança" e "orientada para a resolução de problemas", contribuindo, simultânea e progressivamente, para a "autonomização da comunidade e de otimização dos seus recursos endógenos" (Canário, 2008:68-69).
Desta forma acredito que educação, cidadania, democracia e desenvolvimento local sejam sinónimo de uma vontade comum de melhorar o quotidiano, através da utilização de recursos próprios consoante cada contexto e da capacidade de os gerir de forma lógica, visando a construção de um futuro melhor. Uma aprendizagem em que as aprendizagens de todos, numa vontade comum, expresse a capacidade de sobre(viver), desenvolvendo!
Sendo também certo que, conforme o meu Professor J. António Moreira, tudo isto espelha uma outra dimensão fora da formalidade que permite encarar as sociedades de uma forma menos formatada!
Canário, R. & cabrito, B. (org.) (2005) Educação e Formação de Adultos. Mutações e convergências. Lisboa: Educa;
Canário, R. (2008) Um campo e uma problemática. Lisboa: Educa;
Lierbermann, H. (2010) A importância do associativismo Popular Rural, na Educação de Adultos, no concelho das Caldas da Rainha. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação/Formação de Adultos, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa;
Pateman, C. (2008). Participação e teoria democrática. Rio de Janeiro: Paz e Terra
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