Focando-me na escola acredito
também que deve ser esta a principal promotora de dinâmicas promotoras do
relacionamento intergeracional e intercultural que respondendo às
necessidades de educar para a cidadania, combater preconceitos e discriminação,
mude a perceção que os mais novos possuem sobre velhice e envelhecimento,
educando para o respeito pela diferença e fortalecendo a educação integral de
todos através de ações comunitárias dando lugar à criação de uma alternativa capaz
duma verdadeira transformação social.
Contudo, parece-me também que um tanto ou quanto deslocada da
realidade é o facto de se entender a pertinência desta necessidade mas
continuar-se a colocá-la demagogicamente nos discursos políticos, não se
criando políticas educativas que as façam passar de hipotéticas a efetivas. Com
isto quero também dizer que , para que se efetivem, estamos assim sujeitos à
vocação e ao espírito de missão de certos docentes que, ainda que sem
indicações curriculares para o efeito, promovem estas dinâmicas; Embora
considerando que, ao fazê-lo não devem limitar-se a uma visão restrita da questão
mas sim difundindo a mensagem de que a escola e, não apenas ela, deve estimular
e concretizar uma batalha cultural para alterar as relações sociais com que nos
deparamos atualmente bem como o papel que a educação em geral e a de adultos em
particular, desempenha.
Considero portanto que cabe à escola num verdadeiro ato de
democracia participativa fomentar a ideia de que a formação deve ser
estendida a um âmbito não formal, aproveitando-se assim o potencial
reivindicativo e formativo de movimentos associativos e outros pois, desta
forma, tanto quanto sensibilizar para a educação na e para a cidadania permite
também que todos passemos de beneficiários a cidadãos participativos nas nossas
decisões com os nossos direitos e responsabilidades (Gaventa, 2006).
Isto será, na minha opinião pessoal, entender a participação
como exercício de direitos de cidadania; uma cidadania que fala dela própria,
de direitos, de política de beneficiários e de oportunidades ainda que sejam
mais antigas ou atuais.
A cidadania tem por isso que ser referente de participação.
Assim o défice ou a sua inibição não trazem à luz os processos participativos
capazes de gerar liberdade e democracia que entendo fulcrais para o exercício
da cidadania. E isto torna-se importante de levar em conta uma vez que, toda
esta dinâmica ocorre dum quadro que é, grande parte, percorrido pelos processos
educativos.
Portanto, os contributos da educação de adultos na esfera da
educação formal, mas também da não formal e informal, são essenciais e muito
esclarecedores para as metodologias e processos que estão em jogo para a
construção da luta cultural e educativa que pressupõe a construção de um tecido
social rico e dinâmico, que ajude as pessoas a sair do silêncio, abrindo-as à participação para a resolução de problemas e necessidades de todos Desta forma
concebe-se a participação e a construção da cidadania conforme Dewey,cit. em
Guinchot (2006) como um um estilo de vida.
Ocorre-me também, a partir desta ideia que, a
acomodação a determinados estilos de vida seja uma outra das fragilidades da
cidadania...
Ora isto mais do que dar que pensar, deve dar que fazer! À
escola e a todos nós de modo a conceber-se uma cidadania participativa que
aconteça desde a infância ao longo da vida.
Nesta sequência anterior julgo que um dos
principais problemas colocados à cidadania é também, a meu ver, entendê-la numa
visão hermética que se expressa quase exclusivamente em termos estáticos
dominados pelo aspeto institucional. Ser cidadão não se pode pois limitar a uma
questão de legalidade de direitos e da sua expressão política nos regimes
democráticos tanto mais que as sociedades, em concreto as europeias, não se
podem considerar homogéneas quer no plano ético, linguístico e cultural, sendo
agora os países membros da CE um enorme povoado intercultural.
Assim sendo, o comportamento em ambiente multicultural é
inseparável das relações sociais e a educação intercultural intrínseca à
formação da pessoa, enquanto cidadão,dá a todos nós e muito particularmente à
escola, a necessidade de desenvolver dinâmicas educativas que, envolvendo as
famílias e a comunidade, promovam o desenvolvimento pessoal de crianças, jovens
e adultos, para o desempenho de uma cidadania ativa e para a construção de sociedades
democráticas no respeito pela diversidade cultural daqueles que nela
interagem.
É assim essencial portanto transformar esta visão duma
sociedade multicultural em intercultural.Uma sociedade em que a
identidade pessoal e social não passe pela lealdade cega a um grupo de
pertença, definido normalmente em oposição a alguém ou alguma coisa, mas sim
por um processo de construção permanente, que aceita as diversas influencias e
se alicerça nas semelhanças, nas diferenças, nas vontades conjugadas de construir
uma sociedade mais justa e no sentido de pertença comum à humanidade. ´
Neste pressuposto justifica-se generalizar a educação
intercultural como, Fernand Oullet (1991) em:” … toda a formação sistemática
que visa desenvolver, quer nos grupos maioritários, quer nos minoritários:
- melhor compreensão das culturas nas sociedades modernas
- maior capacidade de comunicar entre pessoas de culturas
diferentes - atitudes mais adaptadas ao contexto da diversidade cultural,
através da compreensão dos mecanismos psico-sociais e dos factores
sócio-politicos capazes de produzir racismo
- maior capacidade de participar na interacção social,
criadora de identidades e de sentido de pertença comum à humanidade.
Uma concepção de educação intercultural que não se aplique
apenas ao contexto de educação formal, nem a locais em que a heterogeneidade
cultural parece mais aparente. Na escola, na família, no trabalho, no desporto,
em qualquer território, educação intercultural implica questionar e aprofundar
o conhecimento, abandonar o ego/etnocentrismo e adotar um novo paradigma – “o
outro como ponto de partida” (Perotti, 2003). É sinónimo de “descentramento” do
eu, capacidade de olhar para a si próprio e aos outros de múltiplos pontos de
vista, de aliar a dimensão do “conhecimento” à dimensão relacional, numa forma
de agir com informação que implica transformação, pessoal e social. Ainda
segundo Fernand Ouellet (2002), educação intercultural articula-se necessariamente
com educação para cidadania e pode também definir-se como obedecendo cumulativamente
a cinco princípios:
- abertura à diversidade cultural
- igualdade de oportunidades e equidade
- coesão social - participação critica na vida e deliberação
democrática
- respeito pela vida no planeta
Constitui-se pois também uma fragilidade à cidadania a tal
visão hermética de que falava anteriormente e que impede os membros duma
sociedade – crianças e aduiltos – de desenvolverem ao máximo as suas
capacidades, face ao seu meio de cultura ou ainda que lhes nega plenos direitos
de cidadania em razão do seu local de nascimento.
Há que lutar com valentia cívica e vigilância crítica pelas
convicções em que acreditamos: promover os direitos humanos e democratizar as
sociedades para além do Estado-Nação, numa perspetiva transnacional.
E a propósito de educação multi-intercultural, penso de novo
nos contributos de John Dewey, em relação à educação democrática preconizando
há 50 anos a educação como uma tarefa da sociedade e a sociedade como uma
tarefa da educação. Este imperativo de ligar a educação à sociedade é
fundamental. Alguém tem que fazer esta ponte. É que sem educação não há cidadão
e a cidadania global não se constrói discriminando os grupos sociais
subalternizados, violando os direitos políticos e civis, económicos e sociais,
ambientais, todos eles interdependentes e a necessitarem de políticas que os
legitimem. Urge (re)inventar uma nova realidade política, económica, social e
educativa. Esta refundação de uma nova ordem mundial, transformadora/emancipadora
e não adaptadora, exige novas perspetivas críticas em educação que nos ajudem a
encontrar um passado para o futuro, criando e reconstruindo tempos e espaços
existenciais para unir e não dividir.
Porque esta fragilidade, senão contornada, será certamente o
mesmo que esquecermo-nos que a sociedade e os seus membros têm direito ao
futuro!
Gaventa,
J. (2006). Perspectives on Participation and Citizenship. In R. Mohanty &
R. Tandon (eds.). Participatory Citizenship. Identity, exclusion, inclusion
(pp. 51-67). New Delhi: Sage Publications. In Revista Lusófona de educação,
n.20, pp 13-29
Guichot, V. (2003). Democracia,
ciudadanía y educación. Una mirada critica sobre la obra pedagógica de John
Dewey. Madrid: Biblioteca Nueva.
Magalhães, 2000, p.153 cito em
Carvalho, Grupo intergeracional: espaço de diálogo entre as gerações,PUC-Rio –
Certificação Digital nº 0410376/CA, disponível em file:///C:/Users/pc/Downloads/Carvalho.pdf
Oullet,
F. (2002) Les Defis Du Pluralisme En Education ; Essais Sur La Formation
Interculturelle. França: Harmattan.
Perroti, António (2003), Apologia
do Intercultural, Lisboa, Entreculturas.
Vasconcelos, T., A
importância da Educação na construção da Cidadania, Saber (e) Educar 12/2007
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