A cidadania ou a faltado seu exercício refletido na apatia política e indiferença ideológica (cont.)

Acredito essencial a noção de que vivemos hoje inúmeras perplexidades face ao risco da exaustão dos modelos clássicos de organização económica e política. Os cidadãos afastam-se e desinteressam-se pelo debate público e participação civíca. Os sistemas de democracia representativa revelam-se frágeis. A política tornou-se, perante o comum dos cidadãos uma atividade suspeita, sinónimo de oportunismo e corrupção o que, se por um lado se constitui como  fragilidades, por outro constitui-se motivo bastante para agirmos face às mesmas promovendo uma cultura de mudança.
É pois essencial que se promova uma esfera pública mais dinâmica, com maior envolvimento dos cidadãos e da sociedade civil, tornando  possível que se inverta a indiferença, o pessimismo e a apatia que, não só restringem como até inibem o exercício dos direitos democráticos essenciais a uma cidadania plena.
Assistimos ultimamente a uma crise de credibilidade da política e das instituições democráticas no mundo ocidental que obriga a repensar o seu funcionamento e procurar novas soluções para o exercício da cidadania.
A gestão burocrática das instituições rouba-lhes a capacidade de liderar com criatividade; os sistemas burocráticos expandidos na Europa do pós guerra respondem uniformemente a problemas diferenciados o que, consequentemente impede as soluções plurais que contêm no seu seio uma vasta diversidade de saberes e conhecimentos. E é aí que reside a necessidade de proceder a arranjos participativos, ainda que num quadro institucional fundado na legitimidade da representação.
Há nitidamente um desgaste ou, até mesmo, uma exaustão crescente dos regimes democráticos formais. É cada vez mais urgente que a cidadania cívica e política se projectem numa nova dimensão, exigindo que se reinventem  novas formas e mecanismos de exercício dos direitos cívicos e políticos. Que se encontrem e exijam novas conceções de construção da cidadania e da esfera pública democrática. Isto pressupõe portanto que se  promova a recuperação do sujeito social activo, ou seja,  uma ruptura com o individualismo conformista e consumista que a racionalidade moderna produziu (com o triunfo do capitalismo) e que o neoliberalismo vigente tem vindo a expandir à volta do globo nas últimas décadas.
Assim há que entender que o indivíduo enquanto unidade desligada do colectivo, ou como essência independente e auto-determinada, não passa de uma mistificação. . O sujeito social, a pessoa, constrói-se na relação com os outros e é moldado pela experiência auto-reflexiva através de uma pluralidade de “superfícies discursivas” (Habermas, 1987) que emanam dos contextos sociais e das experiências partilhadas em colectividade.
No entanto emergem situações de opressão que asfixiam a dignidade individual, a autonomia e a criatividade fazendo com que os indivíduos, enquanto cidadãos, sujeitos individuais se escondam no anonimato inibindo, consequentemente a emergência de novos sujeitos coletivos. E sem liberdade e iniciativa individual não se constrói verdadeiras comunidades,nem uma "esfera pública dinâmica" e, não se gera competitividade. é portanto importante que o sujeito social ativo consiga também sê-lo politicamente o que requer interpelação e questionamento.
A meta para o século XXI é pois construir uma cidadania social que consiga ser mais do que a síntese entre cidadania cívica do séc. XIX e a política , do século XX . Importa, para tal, ultrapassar essa divisão tradicional e passar a exigir uma nova politização da sociedade civil, ou seja, uma cidadania que seja simultaneamente social e política. E esta só se consegue com novos agentes, novos discursos e novas acções, que apostem nas reforma e transformação das instituições e da sociedade, e que assente na ampla participação dos cidadãos e na mobilização dos grupos organizados, dos movimentos sociais e das associações de todos tipos.
É preciso mais que fomentar fazer acontecer uma cultura democrática viva que, portanto seja capaz de aniquilar as situações de desrespeito pelos direitos mais elementares. As violações, os abusos, as agressões à dignidade do indivíduo, a insensibilidade perante a justiça social e humana, a existência de medos no quotidiano de trabalho, nas instituições e organizações (públicas ou privadas) espelho da inefectividade dos direitos de cidadania e a fragilidade da nossa democracia, com especial incidência no campo laboral (Ferreira, 2005; Santos, 2006).
A construção de alternativas direccionadas para tornar mais efectivo o exercício da cidadania, e consequentemente revitalizar a vida democrática de qualquer país, tem de passar pelo idealismo voluntarista, sem o qual não é possível exercer pressão sobre as instituições e os governos e ao mesmo tempo abrir novos horizontes de cariz emancipatório. Há um vasto conjunto de exemplos, sobretudo de âmbito local e regional, construídos sob lógicas comunitárias e mecanismos participativos alternativos – organizados na base de colectividades tradicionais, culturas , associações de produtores, redes de comércio solidário, cooperativas, experiências gestionárias, orçamentos participativos e novas formas de gestão urbana, redes e movimentos .  Reforçar a democracia e a cidadania exigem o contributo da mais ampla diversidade de actores sociais e estruturas organizadas; exige portanto reflexão crítica para uma verdadeira renovação e abertura à sociedade pois só assim conseguiremos responder à necessidade de revitalizar a democracia.
E uma democracia débil é certamente uma fragilidade da cidadania




Imagem disponível em www.google.com. Imagens. Palavra-chave: democracia

Delicado, Ana (2011). Risco e desigualdades sociais. In Carmo, R. do (Eds.), Desigualdades em Portugal: problemas e propostas (pp. 105-115). Lisboa: Edições 70
Ferreira, António Casimiro (2005), Trabalho Procura Justiça: Os tribunais de trabalho na sociedade portuguesa. Coimbra: Almedina.
Habermas, Jürgen (1987), Théorie de l’Agir Communicationnel (vols. 1 e 2). Paris: Fayard.

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