Será tudo uma questão de Competências...



Na área da educação/formação, nos últimos anos tem-se assistido a uma pedagogia orientada para a aquisição de competências (Abrantes, 2001; Perrenoud, 2003). Exemplo desta nova orientação foi a recente reformulação do currículo do ensino básico que pretende implementar um modelo segundo o qual a escola deve preocupar-se não apenas com a “transmissão de saberes”, mas também com a sua utilização ou mobilização, ou seja, com o desenvolvimento de competências. Assim, os referenciais de competências são um importante instrumento de trabalho para que os professores passem a desenvolver os projectos curriculares com base nestes princípios e orientações (Abrantes, 2001).
Esta nova perspectiva causa alguma controvérsia na comunidade escolar, pois há quem conteste a crescente importância atribuída às competências, alegando que estas desvalorizam os saberes disciplinares e valorizam em excesso a utilização prática. Por outro lado, há quem, como Philippe Perrenoud, defenda uma pedagogia orientada para as competências, alegando que não há competências sem conhecimentos e que ambos se complementam, não existindo uma relação de oposição entre estes dois conceitos, mas antes uma relação de complementaridade. Segundo este autor, a recente preocupação com as competências deve ser entendida como uma mais-valia, pois acrescenta uma nova dimensão: a capacidade de utilização dos saberes para resolver problemas, construir estratégias ou tomar decisões (Perrenoud, 2003:13).
A formação de adultos constitui um domínio privilegiado de reflexão sobre a articulação entre o ensino/formação e a vida profissional, isto é, entre os conhecimentos e saberes adquiridos em contexto de formação e a vida prática, nomeadamente na vida profissional. Gerard Malglaive (1995), embora não utilize o conceito de competência, considera que a acção, ao mesmo tempo que é orientada pelo que designa de “saber em uso”, permite o enriquecimento desse mesmo saber. Deste modo, a aprendizagem pela prática permite o acesso pelos adultos aos conhecimentos formalizados, ao domínio cognitivo desses conhecimentos e ao domínio da sua actualização nas actividades práticas (idem:26). Este é um dos principais desafios na formação de adultos, a articulação entre a prática e a formalização de saberes. Esta abordagem, tal como a defendida por Perrenoud, mostra que a incidência no desenvolvimento de competências não nega os “saberes”, contribuindo mesmo para o seu enriquecimento.

De acordo com Sarramona (2006:188), a generalização do conceito de competência ocorreu a todos os níveis do sistema educativo, “habiendo penetrado con fuerza y actualmente se puede afirmar que estamos delante de una ‘corriente educativa’ en el ámbito internacional, lo cual no excluye que haya una amplia diversidad de criterios por lo que se refiere a la interpretación de qué son competencias”. O mesmo autor refere que “en terminología inglesa se habla de performance para hacer referencia a una actividad concreta, de carácter observable y medible, mientras que la competencia seria más bien una capacidad (capability) o disposición que se manifiesta através de las acciones pero que incluye las tres dimensiones señaladas de saber, saber hacer y actitudes” (Idem: 189).

Mulder, Weigel & Collings (2008:18) definem o conceito de competência “como la capacidad para llevar a cabo y usar el conocimiento, las habilidades y las actitudes que están integradas en el repertorio profesional del individuo”, considerando que as medidas “con respecto al desarrollo continuo que incluyen al alumnado y a los titulados desde la perspectiva del aprendizaje a lo largo de toda la vida”.

O CEDEFOP (2008) define competência como a “capacidade de mobilizar os resultados da aprendizagem de forma apropriada num contexto definido - educação, trabalho, desenvolvimento pessoal ou profissional”. Por outro lado, este organismo faz a distinção entre competências de base, ou seja, as capacidades requeridas para viver e evoluir na sociedade contemporânea (saber ouvir, falar, ler, escrever e calcular), e as novas competências de base, ou seja, as competências relacionadas com as tecnologias de informação e comunicação, línguas estrangeiras, cultura tecnológica, espírito empreendedor e comportamentos sociais, as quais, no seu conjunto e de forma integrada, dão origem às competências-chave ou competências essenciais (CEDEFOP, 2008).



Imagem disponível em www.google.com ( Imagens)  Palavras-Chave: Educação, competências


ABRANTES, P. (org.) (2001). Currículo Nacional do Ensino Básico. Competências Essenciais. Lisboa: Ministério da Educação.
CEDEFOP (2008). Terminology of vocational training policy. Luxemburgo: Office for Official Publications of the European Communities. Disponível em file:///C:/Users/pc/Downloads/4064_en%20(1).pdf. Acedido em 15/06/01
MALGLAIVE, G. (1995). Ensinar Adultos. Porto: Porto Editora.
PERRENOUD, P. (2003). Porquê Construir Competências a Partir da Escola? Desenvolvimento da Autonomia e Luta contra as Desigualdades. Porto: Edições Asa.
SARRAMONA, J. (2006). El futuro de la teoría de la Educación en perspectiva tecnológica. Revista Portuguesa de Pedagogía, 40-42, 185-199.
WEIGEL, T.; MULDER, M. (2006). The competence concept in the development of vocational education and training. Universidade de Wageningen, chair group of Education and Competence Studies, the Neetherlands 

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