O sentido de pertença e identidade
Enquadrando-a no âmbito do Desenvolvimento Local começarei então por falar de local como comunidade. E de que comunidade se fala,
quando se insere numa sociedade estruturada de maneira desigual? E se, por si
só; isto já não se constituirá como fragilidade?
Por tal, lembro Bauman quando distingue comunidade real e
imaginária com o conceito de sociedade. Assim, segundo o mesmo, a comunidade
imaginária sugere “sensação de aconchego”, algo que se gostaria de viver e se
espera possuir. Além disso, um espaço de partilha, diferente da sociedade
que passa a ideia de algo mais amplo e impenetrável.
Por outro lado, a
comunidade real não é um lugar sem hostilidade, em que os seus membros vivem
unidos e pondo em exercício o
sentimento de pertença. Ao contrário, o individualismo é a
nova identidade que coabita estes espaços, dificultando que seus membros se
percebam e se preocupem com o espaço local. Por isso, resgatar o sentido de
comunidade parece uma busca incessante de um lugar que seja aconchegante e que
acolha os seus membros, independente das divergências de pensamento. O espaço é
para ser compartilhado, mesmo que o consenso se dê de maneira diversa. Não é
demais lembrar que uma comunidade, se define aqui como um espaço
constituído de pessoas interligadas, dispondo do capital social, como fonte de
conexão a ser explorada. Significa mencionar como coabitam as relações
pessoais, que estão sujeitas aos (ou influenciadas pelos) paradoxos:
fortalecimento e fragilidade. Assim, embora com interferência
das desigualdades sociais, dos fenómenos como a pobreza, a exclusão entre
outros pode-se reconhecer que o capital social é um instrumento de grande valia
para a instauração da comunicação e entendimento entre os homens, para dirimir
conflitos sociais e prezar a cooperação dos seus membros para enfrentar e
combater estes flagelos. Independente de não se ter ao certo uma
definição contundente de comunidade, ou de se estar distante do que
efetivamente ela representa na realidade, entende-se que a prevenção e a
diminuição dos danos ocasionados por estas situações, se dão também a partir da
comunidade, duma comunidade real. E isso procede em virtude do impulso e da
valorização à função social que ela representa na inserção dos seus
membros.Embora fatores sociais e ambientais interfiram na formação de cada
comunidade, para que se possa explorar a participação na resolução de conflitos
que digam respeito aos seus membros, precisam implementar-se políticas
sustentáveis e capazes de dar voz ativa ao sistema de garantias às
populações. Isto obrigará certamente a políticas de prevenção, a começar
desde a infância ao longo da vida, primando-se por educação, saúde, habitação ,
emprego, apoio com programas sociais a famílias em situações socialmente
vulneráveis, entre outros. Ainda que todas as pessoas estejam envolvidas pela
globalização e em virtude da interdependência que ela gera, não possibilitando
autonomia e liberdade na gestão das suas vidas, existem tarefas com as quais
cada pessoa não pode lidar de forma individual, mesmo que o próprio sistema
tenha imposto distanciamento em relação aos outros. Assim, para que os membros
de uma comunidade consigam controlar os desafios da vida impostos por tais
tarefas, precisam agir coletivamente
para a tomada do controle, de decisão.. A esse respeito, Bauman
afirma que é na realização de tais tarefas, que a comunidade mais faz falta;
mas também aqui reside a oportunidade de que a comunidade se venha a realizar,
tecida em conjunto a partir da partilha e do cuidado mútuo; uma
comunidade de interesse e responsabilidade em relação aos direitos iguais de
sermos humanos e igual capacidade de agirmos em defesa desses direitos. Assim a
comunidade pode ser o encontro do paraíso perdido ( utopia?) se
os seus membros forem educados e
sentirem a necessidade de partilhar e realizar tarefas coletivamente. Assim,
mesmo face a uma sociedade de normalização e também de consumo, as
pessoas ainda podem encontrar no espaço local a alternativa para se unirem,
energizarem e socializarem.
Nestes
pressupostos e remontando a Aristóteles, para quem o elemento crucial da
cidadania era a participação na comunidade política, o desenvolvimento pessoal
e a convivência social, não tornando o conceito em si, algo de propriamente
novo (Nogueira & Silva, 2001 in Martins, M.J e Mogarro, M.J. 2010) e
associando-se-lhe democracia, segundo a filosofia de John Dewey, referida em
Guichot (2003 ) como “… estilo de vida para ser vivido- partilhado - e não
apenas ensinado" e a que não consigo deixar de adir o mais elementar
direito da participação, porque se interrelacionam e porque os os
indivíduos só são cidadãos de pleno direito se tiverem possibilidades de participar, acredito
que uma das fragilidades da cidadania é exatamente a não capacidade de se
entender e sentir a comunidade como espaço de pertença, de respeito pela
diversidade quer dos seus constituintes, quer das suas ideias,de participação,
de ação coletiva com vista à resolução de problemas, constituídos fragilidades
que sendo de uns, serão de todos.
Bauman,
Zygmund. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução de Carlos Alberto
Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 58.
Guichot, V.
(2003). Democracia, ciudadanía y educación. Una mirada critica sobre la obra
pedagógica de John Dewey. Madrid: Biblioteca Nueva.
Lucio-Villegas, E.
A construção da cidadania participativa através da educação.Revista Lusófona da
Educação, 20 (2012) pp 13-29. Disponível em http://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/article/view/2935 .
Consultado em 15.04.20
Martins, M.José e
Mogarro, M. João. Educação para a cidadania no século XXI. Revista
Ibero-Americana, nº 53 (2010) pp 185-202. Disponível em http://www.rieoei.org/rie53a08.pdf .
Consultado em 15.04.20
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