Procurando entender o que significa Local

Considerado isoladamente no "Novo dicionário Aurélio ", as significações genéricas de local que mais nos chamaram à atenção foram: como adjetivo, "Relativo ou pertencente a determinado lugar (...)" ou "Circunscrito ou limitado a uma região (...)" e, como substantivo, "Lugar, sítio ou ponto, referido a umfato(...)".

Entretanto, o adjetivo local no contexto da expressão desenvolvimento local assume conotações muito mais diversificadas e abrangentes que as acima referidas, como se pode observar nos conceitos formulados pelos três autores abaixo, todos ressaltando praticamente os mesmos enfoques: 

Para Tereza LÓPEZ (1991 : p. 42), "Quando falamos de local, estamos nos referindo a um espaço, a uma superfície territorial de dimensões razoáveis para o desenvolvimento da vida, com uma identidade que o distingue de outros espaços e de  outros territórios e no qual as pessoas conduzem sua vida cotidiana: habitam, se relacionam, trabalham, compartilham normas, valores, costumes e representações simbólicas ".

Enquanto Jorge GUAJARDO (1988: p. 84) entende local como: "Um território de identidade e de solidariedade, um cenário de reconhecimento cultural e de intersubjetividade e também um lugar de representações e práticas cotidianas (...). Necessidade de construir toda dinâmica de desenvolvimento a partir de uma identidade cultural fundamentada sobre um território de identificação coletiva e de solidariedade concretas".

LAZARTE, em texto divulgado no site da OIT (Organização Internacional do Trabalho), em 1999, afirma que: "(...)La revisión propuesta,  lleva a reivindicar el âmbito de lo LOCAL, como un espacio más concreto de participación social en el proceso, como una unidade de análisis, planificación y acción, capaz de relevar y activar un conjunto de potencialidades no apreciadas por el planificador tradicional y de atender un igual número de demandas insatisfechas a través de mecanismos apropiados al contexto y escala de las mismas, aportando de esta manera dentro un esfuerzo sinérgico al desarrollo de la región y el país ".

Apesar da idéia geral acima sobre o significado básico de local, achamos pelo menos conveniente aprofundarmos um pouco mais o nosso entendimento do que se vem denominando local, no contexto da expressão desenvolvimento local, pela busca de compreensão também dos principais conceitos imbricados nas concepções de local dos três autores acima, sendo eles: espaço, território, comunidade (embora não explícito, este vocábulo está fortemente latente em todas elas), identidade, solidariedade, potencialidade e agente.

E, por isso, achamos também conveniente perceber outros conceitos abrangidos por local:

Espaço: "Distância entre dois pontos, ou a área ou o volume entre limites determinados (...)" e "Lugar mais ou menos bem delimitado, cuja área pode conter alguma coisa (...) ". Em se tratando de espaço no contexto de desenvolvimento local, SANTOS (1999: p. 51) enfatiza exatamente o que é contido  na área, como delineada acima, entendendo que "A configuração territorial não é o espaço, já que sua realidade vem de sua materialidade, enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima (...) O espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá (...). O espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade (...)".  

Em verdade, espaço e território constituem duas dimensões de um mesmo universo ou conjunto de realidade; Relativamente ao vocábulo território como substantivo temos: " 1) Extensão considerável de terra; torrão. 2) A área dum país, província, cidade, etc.". Com conotação jurídica será:  (...) Base geográfica do Estado, sobre a qual exerce ele a sua soberania, e que abrange o solo, rios, lagos, mares interiores, águas adjacentes, golfos, baías e portos [ e]  ou  (...) A parte juridicamente atribuída a cada Estado sobre os rios, lagos e mares contíguos, e bem assim o espaço aéreo que corresponde ao território, até a altura determinada pelas necessidades da polícia e segurança do país, devendo-se, ainda considerar como parte do território os navios de guerra, onde quer que se encontrem, e os navios mercantes em alto mar ou em águas nacionais".

Contrastando o conceito de território com o de espaço, aludido em  a posição de SANTOS (1999: p. 51) é a de que "(...) A configuração territorial é dada pelo conjunto formado pelos sistemas naturais existentes em um dado país ou numa área e pelos acréscimos que os homens super impuseram a esses sistemas naturais. (...) A configuração territorial, ou configuração geográfica, tem pois uma existência material própria, mas sua existência social, isto é, sua existência real, somente lhe é dada pelo fato das relações sociais"

Assim , território e espaço complementam-se num todo bidimensional, o primeiro como base de sustentação e delimitação geofísica para que o segundo emerja e flua com configurações próprias de dinamismos fenomenológicos, inclusive vitais, nos limites do primeiro.

Mas para entendermos Local, no âmbito do desenvolvimento local não nos podemos apenas basear em Local, espaço, território. É essencial centrarmo-nos no termo Comunidade não apenas como retratado no "Novo Dicionário Aurélio", enquanto :  "Qualquer conjunto populacional considerado como um todo, em virtude de aspectos geográficos, econômicos e/ou culturais comuns (...)" ou, então, "Grupo de pessoas considerado, dentro de uma formação social complexa, em suas características específicas e individualizantes (...) mas também à luz de outros olhos como os de:


MELVER (1968 : p. 7) : "Comunidade consiste em um círculo de pessoas que vivem juntas, que permanecem juntas de sorte que buscam não este ou aquele interesse particular, mas um conjunto inteiro de interesses, suficientemente amplo e completo de modo a abranger suas vidas ".

PIERSON (1968 : p. 322) que  enfatizando o relacionamento primário, espontâneo e informal, como a característica mais marcante de uma comunidade, nos diz que comunidade consiste na "(...) organização espacial e funcional de seres vivos (vegetais, animais ou humanos) biótica ou economicamente interdependentes; é produto de competição e acomodaçao; a interação  nela existente é inconsciente e assim impessoal; tratam-se os indivíduos uns aos outros como simples utilidades; define-se a partir de simbiose, ordem econômica, divisão de trabalho, localização no espaço (ordenada, todas as partes tendo relações orgânicas com as outras); função: maior eficiência na luta pela existência (...)".

Já ÁVILA (2000a: p. 71-73) analisa sociologicamente as duas formas básicas de agrupamento dos seres humanos desde o surgimento da espécie, as chamadas comunidade e sociedade. A comunidade que se configura por grupo de pessoas que se convergem, articulam e interagem através de "relacionamentos primários " e a sociedade que também se constitui de grupo de pessoas que se convergem, articulam e interagem só que, ao inverso da comunidade, por "relacionamentos secundários", entendendo-se que:

[Os] "'relacionamentos primários' (...)consistem naquela cadeia de contatos e vínculos que as pessoas vão paulatina mas constantemente formando entre elas, ao longo de suas contidianidades de vida, de maneira fortuita, espontânea e informal: por eles as pessoas se conhecem, se avaliam e se controlam, assim como conhecem, avaliam e controlam o ambiente comum de suas existências. Esses laços de vinculações interpessoais se iniciam, expandem e consolidam do âmbito da vizinhança para os de bairro, de cidade, e assim por diante, (...)".

 [E] '"Os relacionamentos secundários', ao contrário dos 'primários', decorrem e se respaldam em regras formais (leis, regimentos, regulamentos,  e quaisquer outros tipos de normas e decisões coletivas) de controle externo à pessoalidade de cada um, gerando o princípio jurídico de que 'todos são iguais perante a lei' (•••)".

Face a isto, "A comunidade stricto sensu será  caracterizada pelo predomínio (quantidade, diversidade, relevância, etc.) dos itens de relacionamentos primários sobre os secundários, até o ponto de equilíbrio. E a comunidade lato sensu estará se configurando a partir do ponto de desequilíbrio em favor dos relacionamentos secundários". 

Portanto,  "A 'comunidade média ideal' para efeito de desenvolvimento local é aquela stricto sensu em que haja certa (não exagerada) preponderância dos relacionamentos primários sobre os secundários ou no máximo se constate o equilíbrio entre essas duas categorias: a localidade demasiadamente primarizada é muito conservadora e fechada, tendendo a se manter no isolamento. E a muito secundarizada já se encontra esfacelada em termos de seus comuns sentimentos, interesses, objetivos, perfis de identidade e outros laços de coesão espontânea, sem os quais o desenvolvimento não emergirá de dentro para fora da própria comunidade, (...)".

Estamos assim mais próximos de poder entender o Desenvolvimento Local para dizer que da vontade dos Homens emerge o desenvolvimento Local!





Ávila,V.F. & all (2001) Formação educacional em desenvolvimento local: relato de estudo em grupo  e análise de conceitos. 2.ed. Campo Grande:UCDB, disponível em  http://www.desenvolvimentolocalvfa.com.br/?cat=3, acedido em 2015.03.26

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