Reorientação dos conceitos de Educação e Formação para o contexto de ALV

Segundo Pedrosa (2006), é importante ligar a educação à formação profissional, numa perspectiva de cadeia educativa com cinco elos: “a educação pré-escolar; a educação composta pelos primeiros 9 ou 10 anos de escolaridade; a educação geral e o ensino profissional; a educação superior e terciária; a educação de adultos ou educação contínua”, salientando que a escolha adequada é “inserir a Formação Profissional numa rede diversificada de ofertas que ofereçam alternativas reais para realizar um percurso continuado de aprendizagem ao longo da vida”. Mais adiante, refere que “a Educação e a Formação têm que ser pensadas para servir e responder a todos e a cada um dos cidadãos, individualmente. Por isso, a diversidade que não exclui nem discrimina deve ser cultivada em todos os ciclos de estudo, numa cadeia educativa em que os elos sejam sistematicamente monitorizados e reforçados”.  
Neste contexto, têm emergido em toda a Europa sistemas de reconhecimento, validação e certificação de competências, sendo hoje um dos principais desafios da sociedade actual, pois, como refere Pires (2005), “vem questionar os sistemas de educação/formação (inicial e contínua), confrontando-os com novos desafios, principalmente no âmbito da educação/formação ao longo da vida”. Ainda de acordo com esta autora, “o reconhecimento e a validação das aprendizagens experienciais – saberes adquiridos à margem dos sistemas tradicionais de educação/formação, em contextos não-formais e informais –, é uma nova problemática que se situa no cruzamento de diversos contextos: o mundo da educação/formação, o mundo do trabalho e das organizações e a sociedade em geral” (op. cit.: 368).
Martins (2000) refere que “uma nova visão da escola e da comunidade educativa surge e se consolida. A educação deixa, assim, de ser um momento na vida das pessoas, para passar a ser um desafio permanente”, salientando que a “sociedade educativa pressupõe o paradigma da educação e formação permanentes, como gerador de capacidade de adaptação para resposta aos riscos da modernidade e da inovação. A educação tornou-se, assim, um factor de coesão, de integração e de criação de competências múltiplas com capacidade de adaptação, sobrepondo-se à lógica de mera reprodução de estruturas fechadas e corporativas”
Há outros autores que partilham da mesma opinião, realçando a necessidade de reorientar os conceitos de educação e formação para um contexto de aprendizagem ao longo da vida. Para Almeida & Vieira (2006), “o conceito de educação tende a ampliar-se e a adquirir um âmbito mais abrangente que extravasa, em muito, as fronteiras estritas da educação inicial, formal, de base escolar e dirigida a crianças e jovens. Erigido no discurso político como um imperativo de modernização e competitividade económica das sociedades e como ingrediente de acesso à sociedade do conhecimento, o conceito de aprendizagem ao longo da vida confere, obviamente, uma nova relevância à questão da educação de adultos.”
Também Pires (2005) salienta que “a aprendizagem ultrapassa os limites espácio-temporais das instituições tradicionais de educação/formação (escolas, centros de formação, universidades,…), e desenvolve-se ao longo da vida activa, para além dos espaços/tempos formalizados. Diversificam-se os contextos e os processos de aprendizagem e reconhece-se a emergência da Sociedade do Conhecimento, marcada por novas formas de produzir, utilizar e difundir o conhecimento”.
Não será pois difícil entender que, cada vez mais é importante que a educação e a formação ocorram fora das suas áreas de intervenção tradicionais e passem a ser um processo contínuo que acompanha as pessoas, do início ao fim da sua vida, em várias ocasiões e contextos que permitem aprofundar e enriquecer os conhecimentos anteriores.

Valoriza-se assim a ALV ao englobar a aprendizagem formal, ou seja, aquela que é tradicionalmente disponibilizada por um estabelecimento de ensino ou de formação, que se encontra estruturada (em termos de objectivos, duração e recursos) e conduz a uma certificação; a aprendizagem não formal, ou seja, as actividades intencionais e planeadas (em termos de objectivos, duração e recursos), mas que não conduzem normalmente a qualquer certificação, decorrendo normalmente fora dos estabelecimentos de ensino e formação; e a aprendizagem informal, ou seja, aquela que resulta das actividades da vida quotidiana relacionadas com o trabalho, a família e o lazer, não estando normalmente estruturada nem associada a qualquer tipo de certificação (CEDEFOP, 2004; Bernabeu, 2005; Correia & Mesquita, 2006).

Neste âmbito, a UE tem tido um papel particularmente activo no sentido de impulsionar as práticas relacionadas com o reconhecimento e a validação das aprendizagens não-formais e informais. Merece especial destaque, em 1996, o “Ano Europeu da Aprendizagem ao Longo da Vida” e a publicação do Livro Branco “Ensinar e Aprender – rumo à sociedade cognitiva”, a partir dos quais se inicia uma nova etapa nas políticas europeias relacionadas com a educação e formação, reforçadas posteriormente com a Declaração de Lisboa e o “Memorando sobre a Aprendizagem ao Longo da Vida”.

É neste contexto que em Portugal se define uma Estratégia de Aprendizagem ao Longo da Vida e que são concretizadas as primeiras iniciativas, tendo em vista a criação de uma rede nacional de centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC).

Em Portugal, as políticas de educação e formação são desenvolvidas em cooperação com outras políticas, tais como a do emprego, da economia e da sociedade de informação, indo ao encontro dos objectivos da Estratégia de Lisboa, promovendo a inclusão e coesão social, a mobilidade, a empregabilidade e a competitividade.

Assim, em Portugal existe uma grande variedade de oferta formativa para adultos, merecendo especial destaque: o sistema de reconhecimento, validação e certificação de competências (nível básico, nível secundário e certificação escolar e profissional), os cursos de educação e formação de adultos, de dupla certificação e certificação escolar, tanto para o nível básico como para o nível secundário; as formações modulares, as vias de conclusão do ensino secundário de educação, os cursos de especialização tecnológica, as provas M23, as acções S@ber+ e o ensino recorrente (nível básico e nível secundário).




Imagem elaborada a partir da informação da ANQEP




PEDROSA, J. (2006). Educação e formação profissional: os contextos e as inter- -relações. M. F. Patrício (Org.), Educação e formação profissional: as perspectivas do movimento da escola cultural (pp. 29-33). Porto: Porto Editora.
PIRES, A. L. O. (2005). Educação e formação ao longo da vida: Análise crítica dos sistemas e dispositivos de reconhecimento e validação de aprendizagens e de competências. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia.
MARTINS, G. O. (2000, Julho). A educação como um espelho, em R. Carneiro (Dir.), O futuro da educação em Portugal – tendências e oportunidades: Um estudo de reflexão propectiva (pp. 13-24). Lisboa: Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento do Ministério da Educação
ALMEIDA, A. N. & Vieira, M. M. (2006). A escola em Portugal. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais
BERNABEU RICO, J. L. (2005). Educación y dimensiones de la educación. Em A. J. Colom (coord.), J. L. Bernabeu, E. Domínguez & J. Sarramona, Teorías e instituciones contemporáneas de la educación (4.ª ed. ampliada e actualizada, pp. 19-40). Barcelona: Ariel.
CEDEFOP (2004). Terminology of vocational training policy. Luxemburgo: Office for Official Publications of the European Communities

CORREIA, A. & MESQUITA, A. (2006). Novos públicos no ensino superior – Desafios da sociedade do conhecimento. Lisboa: Sílabo.

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